Texto Interessante! “DO ÓDIO AOS EUA”

Não posso dizer que nunca entendi essa coisa de odiar os Estados Unidos porque, quando tive meus dezessete anos, também fazia parte dessa turma. Aos dezenove, porém, já não via sentido nisso. E é espantoso que pessoas teoricamente adultas mantenham esse comportamento meio estranho.

E nem falo aqui dos que se tornaram milionários atacando o capitalismo, como Michael Moore, entre tantos outros (cineastas, músicos etc.), pois são versões até divertidas e menos deprimentes daqueles militantes brasileiros que pregam um “Estado Grande” porque se servem dele para financiar suas peripécias (dependendo de quem esteja no poder, é claro).

Acho realmente curioso e inexplicável essa raiva dos EUA partindo de brasileiros que muitas vezes idolatram uma miríade de produtos e produções norte-americanas, sem falar na essência daquilo que pretendem detratar: o capitalismo. Não são poucos os que lançam mão de iPhones e iPads para descer a ripa no imperialismo ianque, antes e depois de acender um Marlboro.

Os brasileiros, salvo exceção, ainda têm um problema imenso em separar as coisas “públicas” daquelas que seriam “governamentais” – vale lembrar a miríade de pessoas que consideram “do governo” qualquer área pública, sem saber que somos todos nós os donos (talvez, por isso, muitos emporcalham ruas, praças etc.).

Com os EUA, há algo parecido: não dissociam “governo” de “povo”, de modo que QUALQUER COISA daquele país é vetada como se fosse obra de determinada gestão. Quando muito, mas não sem extrema idiotice, tratam as coisas americanas como um resultado histórico de ficções políticas encalacradas nas narrativas ideológicas estúpidas.

Além disso, diferenciam ditaduras como se o autoritarismo pudesse ser justificado a depender da cor da bandeira ou das “alianças estratégicas”. Cuba e Irã, por exemplo, não são objeto de qualquer protesto desses militantes – mas outras ditaduras, caso sejam aliadas dos EUA ou Israel, merecem reprimendas ideológicas. A preocupação não é com a liberdade ou a vida das pessoas, mas com pormenores quase metafísicos.

Eu sou contra a pena de morte, sob qualquer circunstância. Não acho que o Estado deva ter poder de executar penas capitais. É uma posição objetiva, uma espécie de “imperativo categórico”. Mas a militância brasileira não pensa assim, de forma mais ampla. Eles são contra, mas também são a favor. Explico.

Se um sujeito é condenado à morte no Texas porque matou trinta pessoas, eles acham errado que seja executado. Ok. Mas se alguém tenta fugir de Cuba ou uma mulher é acusada de adultério no Irã, o assassínio promovido por essas ditaduras é considerado “aceitável”, às vezes com direito a certa argumentação rastaquera, ou então por meio do silêncio convenientemente obsequioso.

Quando se trata de um país, diante de uma pletora de características e atribuições, não faz sentido simplesmente “amar” ou “odiar”. Muitas vezes, há aspectos positivos e negativos que devem ser pesados. E é totalmente normal ser contra um ou vários atos de um governo, sem que se possa condenar todo o país. Caso simples: a invasão do Iraque pode ser condenada (eu a condeno, p.ex.) sem a necessidade de estender a virulência contra TODO O SISTEMA DE MERCADO E DE PRODUÇÃO do país invasor.

Os antiamericanos mais novos, é claro, não se lembram de quando seus pares mais longevos aplaudiam a URSS – essa sim, invasora contumaz e avassaladoramente assassina, que promoveu ao longo de sua história aberrações como o Holodomor (Stálin matou cerca de 5 milhões de Ucranianos… DE FOME!).

Na época da tal Guerra Fria, EUA e URSS se contrapunham e nossos “humanistas” de hoje eram defensores desta última. Dada a peculiaridade dessa tal guerra-sem-disparos, o desfecho foi de certa forma patético: o socialismo da Rússia simplesmente FOI À FALÊNCIA. Talvez não se possa dizer que os Estados Unidos ganharam, mas seguramente os soviéticos perderam.

O socialismo deu errado? Sim, claro. Embora ouçamos que o capitalismo seja o modelo em decadência (quem diz isso, acredite, propõe sempre algo associado àqueles regimes autoritários que EFETIVAMENTE sucumbiram por razões relativamente óbvias).

E odeiam os EUA. Mesmo depois dos dezoito anos de idade, prosseguem odiando o “vencedor” de uma disputa global que apenas atestou de forma inequívoca a sucumbência de um sistema fadado a dar chabu. Não importa: a culpa é dos Estados Unidos, sempre.

No fim das contas, são pessoas de sorte, pois uma hipotética (embora impossível) vitória da URSS transformaria o mundo num lugar sem qualquer possibilidade de diálogo, oposição, crítica etc. O direito de espernear, portanto, seria suprimido na base de prisões e fuzilamentos – como ainda ocorre em alguns lugares de que tais militantes tanto gostam, mas não são idiotas a ponto de morar lá.

A adolescência é uma fase natural da vida de todos. O problema é quando a puberdade ideológica não acompanha a etária, formando assim alguns grupos pra lá de caricatos e permanentemente infantis. Toda criança chega a certa idade em que precisa largar a chupeta e as fraldas.

O “antiamericanismo” segue a mesma lógica.

Texto extraido do site: http://www.interney.net/blogs/gravataimerengue/

Achei muito interessante e resolvi compartilhar!